Me propus ultimamente a conhecer mais o cinema brasileiro, e resolvei começar com uma pornochanchada. Sem grandes esperanças, tive a mais agradável surpresa cinematográfica dos últimos - pelo menos - seis meses. Leigo que sou no assunto de pornochanchadas, esperava algo de pornô e algo de chanchada. O filme em questão está muito longe das duas coisas, contendo menos nudez do que um filme de censura 16 anos dos dias de hoje (e toda ela castigada) e um humor muito mais refinado do que a maior parte do que sai de Hollywood nos últimos tempos. O filme me lembrou "Esse Obscuro Objeto do Desejo", do Luis Buñuel, brincando com a política das relações sexuais e a fragilidade da máscara de civilização que usamos sobre nossa natureza e instintos. A história, de Nelson Rodrigues, é sensacional, como se pode esperar, e apesar de não ter assistido à peça original a adaptação de Arnaldo Jabor me parece bastante adequada. Também os personagens convincentes e as atuações muito boas, e apesar de gerarem uma certa estranheza pelo contexto da época em que estão inseridas, isso só aumenta o interesse e o divertimento proporcionados pelo filme. Apesar de em certa medida ser um filme com muitos aspectos mascarados por conta do contexto da ditadura, Toda Nudez Será Castigada é acima de tudo um filme muito mais honesto do que todos os filmes brasileiros que vi nos últimos tempos, pertencendo muito mais à nossa cultura, ainda que em grande parte mais distante da vida que levamos hoje.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Toda Nudez Será Castigada (1973) ★★★★★
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quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Gigantes de Aço (2011) ★½
Um filme infantil, bobo e previsível, repleto de clichés como vilões de sotaque russo (afinal é sempre bom ver comunistas fracassando) e uma sub-trama de redenção. Uma colcha de retalhos feita de filmes como Karate Kid e Rocky, Gigantes de Aço não traz uma surpresa sequer e é em muitos momentos simplesmente entediante. A uma estrela e meia que dou vai para a boa atuação e o pouco prazer proporcionado pelo simples fato de ver seres gigantes e grotescos se destruindo.
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Um Ramo (2007) ★★★★½
Para balancear a crítica negativa que dei ao longa metragem Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, me sinto compelido a dar crédito aos diretores pelo fantástico (em mais de um sentido) curta Um Ramo, que pode ser assistido acima. É difícil apontar exatamente o que fez com que eu gostasse tão mais de Um Ramo do que de Trabalhar Cansa, mas sem dúvidas grande parte disso se deve ao fato de que o curta nos poupa da crítica social barata que faz de seu contraparte um filme irritantemente pretensioso. Além disso as personagens em si são mais atraentes e o tempo para seu desenvolvimento é mais sutil e muito melhor organizado, ao contrário do que acontece no longa.
Vidas em Jogo (1997) ★★★★½
Assim como o jogo em que Michael Douglas se envolve no filme em questão, Vidas em Jogo é um filme sobre o qual é melhor se saber o menos possível antes de assistir. Não é um filme pretensioso e não tem aspirações de ser uma grande obra de arte, mas é sem dúvidas grande entretenimento e muito bem executado. A direção de David Fincher acerta na mosca e é comparável aqui às melhores de suas obras, fazendo do filme um ótimo exemplar do gênero "Mindfuck". É um filme que por natureza depende completamente da trama e de alguns recursos cinematográficos enlatados, mas estes são muito bem executados e nem por isso o desenvolvimento das personagens deixa a desejar, enquanto ótimas atuações reforçam essa sensação. A meia estrela que falta fica por alguns pontos ligeiramente infantilizados da história e pelas técnicas cristalizadas que citei, como as freqüentes reviravoltas. Elas não chegam a ser cansativas, no entanto (ainda que por pouco), e Vidas em Jogo é um ótimo filme que faz pensar (mas não muito) sem deixar de divertir.
domingo, 16 de outubro de 2011
Feist | Metals (2011) ★★

Até então não a conhecia muito bem. Uma música ali, outra aqui e só. Juntando a sugestão de uma amiga de não só escrever daquilo que realmente gosto / conheço e pelo fato de Feist ter lançado um dos discos mais comentados pela mídia estrangeira e nacional especializada no último mês, Metals, me soou como uma ótima oportunidade para conhecê-la.
No geral, o disco conta com uma produção de muito bom tom e arranjos de ótimo gosto, com isso a artista indie deixa de vez a crueza do movimento e flerta bastante com o pop no seu recente trabalho.
‘The Bad in each other’ é ótima carta de boas-vindas ao disco, abertura pontuada que leva a passos firmes para as linhas envolventes e timbre de voz tão único da Feist. Faixa que retrata bem o álbum, riquíssimo nos detalhes.
A segunda faixa já desempenha um papel importante, de conduzir o ouvinte para o ambiente predominante do Metals, ‘Graveyard’ tem um ritmo mais cadenciado, bom, mas sem surpresas. O ponto alto e muito bonito da música é quando cresce com a entrada do coro e metais.
Depois de já adentrado ao universo do Metals, as faixas seguintes caminham mais densas e turvas, não por isso menos belo. Alguns momentos ela soa muito Cat Power. E isso é um elogio.

Passeia por um universo mais denso e turvo, nao por isso menos belo, da Cat Power. O disco apresenta dinâmica, tanto na disposição das músicas e sequência, como a cada faixa. Ele tem um desenrolar, uma evolução, se estiver disposto você fará uma grande viagem.
Minha faixa destaque fica para ‘A Commotion’. A veia do indie salta, as guitarras falam mais alto, tem um peso no andamento do baixo e metais. Arranjos dos mais merecidos elogios.
Gostei, vale a pena ouvi-lo por inteiro. Não foi uma viagem perdida, foi muito agradável e deu interesse por saber mais. Muito prazer, Feist.
Aos interessados, um aperitivo do disco.
Feist - A Commotion by Arts & Crafts
sábado, 8 de outubro de 2011
Sem Saída (2011) ½
Um filme pueril que, com muita sorte, pode chegar a ser o ponto alto de uma tarde de terça-feira no SBT. Quando escrevi sobre Amizade Colorida (2011), há poucos dias, falei sobre a importância de saber apreciar o grande lixo, em oposição à grande arte. Sem Saída é, na melhor hipótese, um exemplo de lixo medíocre que, imagino, deve agradar no máximo às fãs de crepúsculo, atraídas ao filme por Taylor Lautner. A história me lembrou a do filme Pequenos Espiões (2001), e exige, da mesma forma, o tipo de suspensão da descrença que só uma criança tem a boa vontade para reunir. Enquanto Pequenos Espiões tem de fato o público infantil em mente, no entanto, Sem Saída é um filme que se leva bem a sério, mas com um ator, uma trama e personagens que não conseguimos levar a sério nem por um momento.
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Steve Jobs (1955 - 2011) ★★★★★
Algo que me incomoda muito é a maneira como a palavra Arte tem sido mal utilizada. Passeando por uma livraria podemos facilmente encontrar títulos como "A Arte de ser Bem-Sucedido", e em conversas corriqueiras ouvimos comentários como "A engenharia, na verdade, é uma arte". Existem casos, no entanto, ainda que muito raros, em que temos um vislumbre de algo sublime nas coisas mais variadas e corriqueiras, e pegos de surpresa, só nos resta o termo Arte para descrevê-las, porque o são. Se existem de fato esses casos, o legado de Steve Jobs é um deles, e se existe Arte no mundo, podemos encontrar algo dela no design do primeiro Macintosh, nas escadarias da Apple Store, por ele desenhadas, e, sem dúvidas, nas primeiras animaçōes da Pixar sob sua direção. O mundo hoje é um lugar pior sem Steve.
Amizade Colorida (2010) ★★★
"(…) filmes são tão raramente grande arte, que se não pudermos apreciar o grande lixo, temos muito poucos motivos para nos interessar por eles".
- Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema da história, em seu ensaio "Lixo, Arte e os Filmes".
"[Lars von Trier] (...) se arrisca, e isso é raro em um mundo onde a maior parte dos fimes parecem ter sido feitos de retalhos de outros filmes, mas eventualmente sua intensa determinação precisa confrontar a realidade de que um filme não existe sem uma audiência".
- Roger Ebert, um dos maiores críticos de cinema da atualidade, em sua crítica ao filme Dogville.
Amizade Colorida é um desses filmes que entra na categoria de grande lixo. É também um desses filmes que parece ter sido feito de retalhos de outros filmes, e sem correr nenhum risco atinge o resultado (muito melhor do que Dogville, diga-se de passagem) que espera e que (quase) todo filme almeja: é ótimo entretenimento. É comum ouvirmos comentários como "Hoje não estou afim de pensar, vou ao cinema". Enquanto essa é uma triste constatação para a realidade do cinema contemporâneo, é muitas vezes um desejo legítimo, e Amizade Colorida é um ótimo filme para suprí-lo.
Trabalhar Cansa (2011) ★★
Uma das características de que mais gosto nos filmes de Luis Buñuel é a maneira como ele manipula a natureza da realidade para criar situações das mais absurdas e então nelas coloca seus personagens, que reagem sempre de maneira muito verossímil dadas as condições em que se encontram. Ao ver pessoas com quem é fácil nos identificar agindo como agiriam normalmente em nosso cotidiano mas dessa vez nos mundos surreais maquinados por Buñuel, rimos não só pelo absurdo que é a situação criada, mas por nos darmos conta do absurdo do nosso próprio dia-a-dia.
Um exemplo:
Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, seria perfeito para esse tipo de "brincadeira" em que se pode experimentar com a vida dos personagens e levá-los ao extremo de sua humanidade, ainda que de maneira mais séria, como é comum em histórias de mistério. O filme perde a oportunidade, no entanto, e se abstém de explorar qualquer influência que os acontecimentos estranhos da trama tenham de fato sobre as personagens. Um filme de menores aspirações talvez compensasse essas falhas com uma trama elaborada e com momentos de suspense que prendessem nossa atenção, mas esse certamente não é o caso do filme em questão, que gasta seu pouco tempo com o desenvolvimento de personagens planas, estereotípicas e caricaturais, para então fugir do desafío de explorar suas reações a acontecimentos que por si sós não despertam nenhum interesse. Parece haver, além disso, algo de metafórico nos elementos sobrenaturais do filme, mas mesmo esse aspecto é pouco explorado, de forma que o simbolismo parece dissociado do resto da história. O pouco entretenimento proporcionado vem de algumas cenas do tipo comédia de costumes, que tornam Trabalhar Cansa um filme humorístico, e não o filme de drama ou mistério que pretende ser. Para essas poucas risadas, o forte simbolismo e a ambição do filme vão 2 estrelas.
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